segunda-feira, 23 de abril de 2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
Carta sobre Jair.
Como o Sr. Jair Afonso Inácio está partindo de Bruxelas hoje, eu creio que a sua Fundação Rockefeller gostaria de receber uma pequena avaliação sobre a sua permanência conosco. O Sr. Inácio tem estado trabalhando em vários Departamentos do Instituto, incluindo o Departamento de Microquímica, Física e Fotografia, mas sobretudo o Departamento do Conservação. Exatamente em relação à conservação e restauração (pintura, escultura, - madeira e pedra – metais, etc.), ele também vem recebendo treinamento na identificação científica de materiais, na preparação de cortes transversais e no exame e fotografia com infravermelho, visível, ultravioleta e raio-X. Acresce-se ainda, e com a total aprovação da Fundação, o Sr. Inácio tem participado de várias reuniões internacionais: a Conferência em Roma; a reunião conjunta dos Comitês Internacionais do ICOM, do Laboratório de conservação de Pinturas em Barcelona; a conferência geral do ICOM na Holanda, assim como muitas visitas à laboratórios de museus na Europa. Agindo dessa forma, o Sr. Inácio fez muitos contatos pessoais que só podem ser benéficos para o trabalho da futuro da diretoria. Por fim, menciona que, com a UNESCO e ICOM me pediram para preparar um estudo sobre a preservação da herança cultural em climas quentes e úmidos, pedi ao Sr. Inácio para ser membro do grupo de trabalho.
O Sr. Inácio foi um aluno esplêndido. É muito inteligente e trabalha bastante, sempre buscando atingir os mais altos padrões; é também uma criatura humana amável. Consequentemente, tem sido um prazer a todos os meus assistentes trabalhar com ele. Além disso, nos estamos convencidos de que ele tem se beneficiado de todo o ensinamento teórico e prático que recebeu aqui. Gostaria, ainda, de exprimir a esperança de que este Instituto permanecerá em contato com o Sr. Inácio, com a Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico [DPHAN].
ARQUIVO CENTRAL – IPHAN. Serie Centro de Restauração de Bens Culturais. Carta de Paul Coremans para John P. Harrison, Diretor Assistente da Fundação Rockfeller. Datilografada. 31 de jul. 1962.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018
Primeira Turma FAOP 1971
omundodosinconfidentes
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Prosas de Ouro Preto
Desenho: Roberto Alves
Reza a lenda que foi mais ou menos assim: depois de passarem o dia subindo e descendo ladeiras, trupicando em capistranas escorregadias e parando para observar passarinhos e folhagens, altares e oratórios, os dois burocratas enfim chegam ao restaurante do Hotel Tóffolo, situado na rua São José, 72, uma das poucas casas de pouso da Ouro Preto de meados dos anos 1940. Estavam esgotados e, além disso, preocupados com o que viram: parte do barroco mineiro, se nada fosse feito, estaria com os dias contados. Com pesar, um dos funcionários, Manuel Bandeira, membro do conselho consultivo do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), constatava que a antiga Vila Rica era toda “cinza e desgosto”. Também aflito, seu companheiro de versos, carimbos e circulares, Carlos Drummond de Andrade, temia que os muros brancos que tudo viram e reviram caíssem não só no esquecimento, mas literalmente. A questão a ser resolvida naquela noite, contudo, era de ordem mais imediata: estavam, os dois modernistas, completamente famintos. Mas sucedeu que um aspecto do passado que poucos gostariam de ver preservado – a conservação de carnes em gordura animal, uma vez que os refrigeradores ainda não eram acessíveis – impossibilitou a tão ansiada refeição dos poetas. Por não terem avisado com a antecedência devida que gostariam de cear ao hoteleiro, o italiano Olívio Tóffolo, restou o encabulado anúncio de que não haveria jantar. Não há registros sobre a reação imediata dos dois, mas é de se supor que felizes eles não ficaram. Como Bandeira não estivesse em condições de reclamar – ele se hospedava num esquema de permuta, trocando exemplares de seu “Guia de Ouro Preto”, lançado em 1938 por encomenda do SPHAN, por uma cama no hotel –, coube a Drummond expressar o descontentamento da dupla.
Nascia ali o poema “Hotel Tóffolo”, publicado originalmente em 1951 no livro “Claro Enigma”:
“E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica, tudo, no coração, é ceia.”
Leandro Aguiar
http://riscafaca.com.br/historia/modernistas-ouro-preto/
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Por Dom Barroso
A convivência com pessoas e realizações
do passado, oferece-nos condições
de
viver o momento presente e de fazer chegar
toda a riqueza do passado, às gerações do futuro, que não
podem desconhecer as matrizes de sua história, escritas com o
esforço e a arte de antepassados que teriam ficado na lista dos ilustres desconhecidos. Não fora o empenho de historiadores que, através de pesquisas serias, colocaram em relevo artistas como Antônio Francisco
Lisboa, o Aleijadinho, cuja arte atrai numerosos turistas,
sábios admiradores de tudo
o que é, verdadeiramente, belo e artístico.
Tive o privilégio de conviver
com o talentoso restaurador Jair Inácio. Conheci os
seus avós, os seus pais e os seus irmãos. Todos eles, dedicados
paroquianos, da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição,
em Ouro Preto, da qual fui vigário, durante 26 anos. Quando Jair
Inácio trabalhava na restauração da Igreja de São Francisco de
Assis, deparou com um conjunto de riscos
arquitetônicos, em uma das paredes do corredor que dá acesso da nave à
sacristia, ao lado da capela mor. Situa-se na ala, à esquerda de quem
entra no templo. O talentoso restaurador teve a feliz inspiração de
deixar aqueles riscos expostos, depois de remover, cuidadosamente,
toda a massa que, até então, os encobria. Na parede onde se
situam aqueles riscos, podemos observar, bem nítidas, as marcas
dos ponteiros, dos compassos de ponta seca, as linhas de
concordância, segundo observação do professor de arquitetura da FAU/USP,
Dr. Benedito Lima de Toledo, em sua obra Esplendor do Barroco
Luso-Brasileiro. Jamais se apagará da minha memória aquele momento
em que o meu amigo Jair Inácio me levou a conhecer aquela
sua descoberta! A partir daquele momento, como responsável pela
Igreja de São Francisco de Assis e pelo Museu Aleijadinho, na
condição de pároco e de fundador do Museu Aleijadinho, passei a
incluir aquela extraordinária descoberta, no roteiro de visitação
turística da Igreja de São Francisco de Assis. Segundo o professor de
arquitetura da FAU/USP, Benedito Lima Toledo, aqueles riscos na parede
do corredor, de excepcional importância para a compreensão do
processo construtivo das igrejas mineiras do Sec.XVIII, seriam
riscos do frontão da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto. Outros
riscos, traços e marcas, provavelmente usados na confecção de
moldes e peças da construção, foram posteriormente encontra-os,
no piso do consistório (sala de reuniões da Ordem Franciscana)
desta Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, por atentos pesquisadores
das práticas e técnicas construtivas tradicionais. Creio não ser irrelevante chamar a atenção
para esses detalhes dos riscos arquitetônicos,
porquanto, trata-se de um tema de fundamental importância
para a compreensão dos canteiros de obras, de um modo geral e da
cantaria mineira, de modo especial.
Dom Barroso
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Passinho da Ponte Sêca
Foto : Edgar de Cerqueira Falcão
Por Beli Nobrega
Jair, em 1967, restaura o Passo da Ponte Seca, em Ouro Preto.
Encontramos em seus papéis um pequeno texto, datado de 1967,
em que Jair diz:
“...Pois bem, se lá pelos velhos
continentes estão gastando milhões para salvar
seus monumentos, aqui não precisamos salvar
“cousa” nenhuma, basta que conservemos o
que possuímos. Devemos gostar de Ouro Preto
como estimamos a nossa velha mãe que,
estando engelhada e encanecida, olhos
profundos e recurvada, não lhe pintamos os
cílios, as sobrancelhas, nem lhe impomos a
moda de Cardin...”
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Sempre defendeu o patrimônio.
Sacrário do Pilar
Por Beli Nóbrega
Existem “causos” interessantes sobre Jair Inácio;
Os Ouropretanos se orgulham ao contar alguns deles,
principalmente no que diz respeito às línguas que falava.
Um episódio muito conhecido é o da Igreja do Pilar:
“Jair trabalhava na restauração
do teto da Matriz do Pilar, num dia de semana.
Dois turistas americanos entraram no templo
que, àquela hora da tarde, estava
completamente vazio de visitantes e de fiéis.
Atraídos por tanta riqueza nem repararam
naquele pretinho todo sujo de tinta, lá no alto
de um andaime. E começaram a falar (na
língua deles é claro) sobre a facilidade do furto
de uma daquelas imagens ou mesmo de um
castiçal ou florão. Jair, lá de cima, desconfiado
da intenção dos dois, dirigiu-lhes a palavra no
mais perfeito inglês e lhes disse que a cadeia
local tinha lugar para mais dois!...
Não é preciso falar que os
‘gringos’ trataram logo de sair de cena.”
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